Kampfinsel
Manual do Kampfinsel — Como jogar e wiki
Leilão pirata
# Leilão pirata
Um relato do porto, escrito por um marinheiro cujo nome não vem ao caso.
I. O homem por quem não se pergunta #
Há um lugar no porto onde as tábuas rangem mais alto do que deveriam, e as gaivotas não pousam. Atrás das barracas honradas — atrás do peixe salgado, dos cordoeiros e da mulher que vende mapas que ela jura serem autênticos — há um balcão. Apenas um balcão. Torto, curtido pelo tempo, e montado exatamente onde o mercado honesto termina.
Atrás dele, sobre um banquinho que parece mais velho do que ele próprio, senta-se o quartel-mestre.
Não pergunte o nome dele. Não pergunte com que tripulação ele navegou. Não pergunte de onde vem a mercadoria. Os três primeiros capitães que tentaram receberam respostas secas; os três seguintes, mais curtas ainda; desde então, ninguém mais tentou. Ele sorri quando se lembra disso, e esse sorriso diz tudo o que você precisa saber.
O que ele vende, ele vende. O que ele não vende, ele não vende. E o que ele leva — seu ouro — ele fica com ele.
II. A regra do balcão #
Todo porto tem uma regra. A maioria está escrita. A dele, não — mas todo garoto de porto com menos de vinte anos a aprende antes de aprender as marés:
Quem põe ouro no balcão dele já não é dono desse ouro.
Tanto faz quem ganha.
Tanto faz quem é superado no lance.
A moeda nunca mais volta para casa.
Já vi capitães calejados chorarem por causa dessa regra. Já vi marinheiros jovens, três rodadas fundo na Âncora Afogada, jurarem que jamais voltariam a dar lance contra o quartel-mestre. E vi esses mesmos marinheiros na manhã seguinte de volta ao balcão dele, com olhos vidrados de desejo, com mais ouro na mão do que na véspera.
Porque o que a regra não diz em voz alta é isto: o que ele põe sobre o balcão é, às vezes, exatamente o que você precisava.
III. O que há sobre o balcão #
Fiquei ao lado dele tempo suficiente para ver quase tudo.
Um vento favorável — lacrado em uma pequena caixa de madeira com o selo de um mestre de obras. Abra-a no seu estaleiro, e a próxima coisa que você construir se erguerá mais rápido do que deveria. Sem magia, insiste o quartel-mestre. Conhecimento prévio, é como ele chama, e sorri de canto.
Entregas. Caixas cheias de moedas de ouro que ainda trazem o selo da coroa de uma cidade que já não existe. Pilhas de pedra lavrada que não combinam com nenhuma pedreira que eu conheça. Fardos de madeira de uma floresta que — se você perguntar à guilda dos lenhadores — foi derrubada três gerações atrás. Ele não explica nada. Você não pergunta nada.
Um lote de contrabandista — os carros chacoalham ao amanhecer pelo portão do porto, três ao todo, com eixos que rangem. Ouro, pedra, boa madeira limpa, tudo de uma vez, em uma única entrega barulhenta. A mestra do porto não levanta os olhos do seu livro-caixa. Os carros passam. É assim que funciona.
E então — raro como uma tempestade silenciosa, e apenas quando o vento das águas profundas traz aquele cheiro especial de sal e dinheiro velho — um fragmento. Embrulhado em encerado, amarrado com cordão de marinheiro, nunca explicado. Ele o deposita no balcão como se não pesasse nada. Os que dão lance emudecem. Eles sempre emudecem.
IV. O compasso #
Ele nem sempre está lá.
Ele chega, monta o balcão, pendura a placa. Há uma janela — curta, nunca longa o suficiente para os indecisos — em que se dá lance. O lance mais alto ao final ganha. O quartel-mestre acena com a cabeça. O vencedor leva seu embrulho de encerado, ou vê os carros entrando, ou leva para casa uma pequena caixa de madeira com o selo do mestre de obras. Os perdedores arrastam os pés de volta aos seus navios com as bolsas vazias.
Depois, o balcão fica vazio. O quartel-mestre desaparece — para onde, ninguém jamais o seguiu. E, passado um tempo, a placa volta a subir, e um novo lote jaz ali, esperando.
Agora ele vem com mais frequência do que antes. Os velhos lobos dizem que, ultimamente, ele anda mais faminto.
V. Sabedoria da Âncora Afogada #
Se você for — e não estou dizendo que você deveria —, estas são as coisas que os velhos lobos dizem aos jovens, e o que eles dizem é isto:
"Dê lance pela coisa, não contra o homem."
Não se deixe arrastar para uma guerra de lances só para vencê-la. O quartel-mestre não se importa com quem ganha. O que importa para ele é que ambos ponham ouro.
"Se o seu porão está cheio, não dê lance em carga."
Os carros chegam, quer o seu armazém os comporte, quer não. O que não couber, o quartel-mestre dá de ombros, a mestra do porto dá de ombros, e o seu ouro dá de ombros e vai parar em outro bolso. (Ela ao menos lhe envia uma carta listando o que se perdeu. Pobre consolo, mas cortês.)
"Se o mundo não cheira a tesouro, não espere fragmentos."
Ele não vende o que não está na corrente. Há semanas em que as correntes profundas estão calmas, e os embrulhos de encerado ficam onde quer que ele os guarde. Não dê lance em algo que não está à venda.
"Traga um Posto comercial, ou não traga nada."
Ele não aceita ouro de ninguém que não tenha, por sua vez, um balcão que responda por ele. "Eu não faço negócios com amadores," ele diz. "Faço negócios com comerciantes. Há uma diferença. A diferença é a papelada."
"E quando, uma vez ou outra, algo dá errado — e entre mil lances isso acontece uma vez, quando o eixo do carro quebra ou o embrulho de encerado está vazio —, ele avisa. Manda recado. Anota. Ele não lhe reembolsa nada, veja bem, mas anota. Ele mantém os livros. O quartel-mestre sempre mantém os livros."
VI. Onde você o encontra #
Desça até o porto. Passe pelas barracas honradas. Passe pelos cordoeiros e pelo peixe salgado.
Procure o balcão que não deveria estar ali.
Na placa está escrito:
LEILÃO PIRATA
Deem lance, ou sigam em frente.
No diário de bordo do seu capitão: Economia → Pirate Auction. Ele está lá agora. Esteve lá por um tempo. Estará lá por mais tempo.
Traga moedas. Traga coragem. Traga a plena compreensão de que aquilo que você põe, ali fica.
E se uma vozinha no fundo da sua cabeça disser não faça isso — essa voz é mais velha que você, e já viu muitos marinheiros saírem desse balcão com as bolsas vazias.
Escute-a. Ou deixe pra lá.
O quartel-mestre não está nem aí.
— registrado na Âncora Afogada, terceira badalada da guarda da tarde, por uma mão que pôs mais ouro do que está disposta a admitir.